sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Agradecer


Pelas mãos sujas da terra do campo. Pelas mesmas histórias contadas todos as ceias de Natal, que eu ouvia sempre com o mesmo gosto risonho. Por aquela simplicidade das pessoas do campo. Por aquela teimosia encrustrada de quem já viveu muito e acha que já sabe tudo acerca de quase tudo. Por aqueles raciocínios lineares que me faziam sorrir de condescendência. Pela tagarelice ao telefone quando já tinha bebido um tudo nada demais. Pelas roupas negras desde a morte da minha avó. Pela boina de estimação que empurrava para trás com a mão quase espantosamente grossa para coçar a testa. Pela teimosia arreigada que o fazia trabalhar de sol a sol e subir a muros e árvores com 80 anos. Pelos cabelos pretos até aos 70. Pelo olhar quase carinhosamente preocupado quando um dia eu vim para casa triste. Pelo 'tá bem, tá bem' calmo e matreiro quando eu lhe mandava comer tudo o que lhe punha no tabuleiro. Pela cara marcada de rugas de esforço na tentativa de que não se visse nem um bocadinho do orgulho imenso que ele sentia por mim.


E por todas as coisas que recordo do meu avô, que faz algures por agora um ano que morreu.

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