quinta-feira, setembro 29, 2005

Peculiaridades

"La Lhéngua Mirandesa, doce cumo ua meligrana, guapa i capechana, nun yê de onte, detrasdonte ou trasdontonte mas cunta cun uito séclos de eijistência. Sien se subreponer a la "lhéngua fidalga i grabe" l Pertués, yê tan nobre cumo eilha ou outra qualquiêra.
Hoije recebiu bida nuôba.
Saliu de l absedo i de l cenceinho an que bibiu tantos anhos. Deixou de s'acrucar, znudou-se de la bargonha, ampimponou-se para, assi, poder bolar, strebolar i çcampar l probenir.
Agarrou l ranhadeiro para abibar l lhume de l'alma i l sangre dun cuôrpo bien sano.Chena de proua, abriu la puôrta de la sue priêça de casa, puso fincones ne l sou ser, saliu pa las ourriêtas i preinadas..
Lhibre, cumo l reoxenhor i la chelubrina, yá puôde cantar, yá se puôde afirmar.
A la par de l Pertués, a partir de hoije, yê lhuç de Miranda, lhuç de Pertual. "


(Texto de Apresentação do Projecto Lei de reconhecimento
dos direitos linguísticos da Comunidade Mirandesa.
Assembleia da República
Lisboa, 17 de Setembro de 1998)

quarta-feira, setembro 28, 2005

Almas gémeas


Quando toca a este tema, não posso deixar de recordar aquela fantástica série da RTP2, Dharma e Greg. Dharma é uma rapariga filha de pais hippies, altamente liberais (libertinos?...), cuja ideologia se baseia no "amor e paz" para cada um, sem conflitos nem disputas. Greg, por seu lado, é oriundo de uma família muitíssimo conservadora, rica e de bom nome, a qual gostaria que ele tivesse escolhido uma esposa mais educada, prendada e de preferência com um nome para apresentar. A série relata a vida matrimonial do casal, bem sucedida em todos os campos, com excepção das tentativas que visam o bom relacionamento dos pais de ambas as partes.

Fora da Televisão, dentro do dia-a-dia, parece que, de facto, a série - com todo o seu exagero humorístico - tem um fundo de verdade: o sítio de onde se provém, os ideiais partidários ou mesmo, por vezes, a religião na qual se foi criado, não parecem ter muito a ver com o que determina a felicidade da união de duas pessoas. Se bem que há casais que têm tudo em comum e parecem "meant to be together"... outros há que desafiam as leis da sociedade e do previsível com o grau de improbabilidade da relação. Mais engraçado que isto é que, não só raras vezes os segundos funcionam, como o fazem melhor do que os primeiros.

Face a estes "fenómenos para-normais", resta-me a pergunta incontornável: afinal, o que une (realmente) duas pessoas?...

... Do tempo que pensei sobre isso, cheguei a uma conclusão que me parece ter sentido: numa relação saudável - isto é, numa relação na qual os membros do casal crescem em conjunto, de forma livre mas sem se distanciarem demais, e de forma próxima mas sem se sufocarem - as pessoas intervenientes têm em comum algo que se prende com o que esperam do mundo e a forma como trabalham para o alcançar. Procuram o mesmo, ainda que lhe chamem nomes diferentes. Desenvolvem esforços com vista a um mesmo fim, ainda que aparentemente o façam de formas distintas. Vêm o mundo de forma semelhante. E com base nesta premissa, vão-se desenvolvendo em conjunto, tolerando tudo o que é de somenos importância com vista a um bem comum. É esta verdade comummente partilhada que traz tudo o resto: o falarem a mesma linguagem, o entenderem tudo o que outro diz e o que não diz, o saberem respeitar as pequenas diferenças porque há algo de maior que os une, algo que orienta a forma como querem crescer no mundo e o lugar que pretendem nele.

Parece uma visão, embora bonita, algo complicada. Como vamos conseguir saber quem é a pessoa que se rege pela nossa visão do mundo? Como sabemos o que quer a outra pessoa, ou, se calhar ainda mais difícil, o que nós queremos? A resposta, no meu entender, é simples: pela Amizade. E quando me refiro a Amizade não falo somente da relação de companheirismo dos "bons" ou "maus" momentos, mas - mais importante que tudo o resto - de uma sede de conhecimento de nós próprios e dos outros, que leva a uma partilha profunda, verdadeira e desinteressada. E, se bem que trabalhoso, parece-me que este método iria resolver muitos desamores que por aí se geram: passa-se do discurso do "ele é krido,damo-nos bem,deixa ver o que dá" para uma vontade insaciável de conhecimento honesto, o qual daria lugar a muitas amizades frutíferas e a menores probabilidades de falha em relacionamentos mais sérios. Pelas palavras do sábio Karol Wojtyla:

"O amor, no seu conjunto, não se reduz à emoção nem ao sentimento, que não são senão alguns dos seus componentes. Um elemento mais profundo, e de longe o mais essencial de todos, é a vontade, que tem o papel de modelar o amor no homem. Na amizade - ao contrário do que sucede na simpatia - a participação da vontade é decisiva".

sexta-feira, setembro 02, 2005

Inútil... mas tão belo.





A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.


Fernando Pessoa

quinta-feira, agosto 18, 2005

Poças de água



Há quem goste de comparar a vida a uma travessia no mar alto: "Umas vezes calma, outras vezes turbulenta e revolta, vogamos ao sabor da maré, orientando a nossa proa para um rumo incerto, procurando ultrapassar as grandes tempestades que nos tentam derrubar. No fundo, no fundo, somos uns heróis, lutando contra a vida que, traiçoeira, espreita a cada esquina à espera da melhor oportunidade para nos fazer cair. (...)"

Por mais que me agrade a ideia de ser a grande heroína de toda esta peça, o que é facto é que, infeliz ou felizmente, me parece que esta visão está algo longe de ser fértil. Se realmente quisesse meter água neste assunto, diria que a minha vida é, não um mar imenso, mas uma simples poça de água. Como fu
i dotada de uma boa dose de orgulho, insisto em acreditar que é um mar terrível e sem fim, e que cada rabanada de vento é uma grande tempestade... quando o que é facto é que, quando eu me distraio e paro de esbracejar freneticamente, toda a água acalma e eu olho à minha volta e percebo que durante todo aquele tempo era eu que estava ocupada a criar grandes ondas em vez de me dispor a analisar a travessia e decidir para onde ir. É claro que olhar para a minha"pocinha" e ver o quão pequena é custa (o orgulho é uma coisa tramada...) e por isso tantas vezes volto a esbracejar na esperança de que se torne maior e assim eu possa justificar a minha inércia. Mas contam as vezes em que vou lutando contra ela e remo com vontade para terra firme, procurando não ceder ao medo da responsabilidade de segurar o leme da minhas decisões. Devagar se vai ao longe, o que interessa é continuar. Como dizia o velho provérbio chinês: “Não receie crescer devagar, tenha apenas medo de permanecer imóvel".

Para os incansáveis remadores de outras poças de água: votos de uma excelente travessia!

sábado, julho 30, 2005

Aprendizagens...


"(...) mais eficaz que todos os nosso esforços - o que nos muda é o facto de Deus, secretamente, no torno da vida, nos tomar nas Suas mãos e nos moldar. (...)"

Nuno Tovar de Lemos, s.j., in O Príncipe e a Lavadeira

sexta-feira, julho 29, 2005

Tostas!



"Hoje apetece-me comer tostas com marmelada!"


"O blog não tem de ser sempre sério. Funciona mais ou menos assim: um dia acordas de manhã e pensas: "hm, apetece-me comer tostas com marmelada!". Vais para o PC, procuras uma imagem de tostas com marmelada no Google e escreves "Hoje apetece-me comer tostas com marmelada!". E pronto!".

... :) Em homenagem a essa fantástica conversa sobre blogs, aqui está o post... e aqui está o blog que, espero, seja lugar de conversas - sérias ou ligeiras - sempre agradáveis. Com a lembrança das tostas com queijo de ervas a acompanhar ;).