sábado, maio 26, 2007

Entre cá e lá


Se o vendaval se fizesse brisa
E deixasse ouvir
A vida a nascer

Se a montanha
Se tornasse meta Alcançada

Se a tempestade deixar sentir
O cheiro da terra molhada
A vida vai acontecer

Quando a guerra for pacificada
E a porta de saída
Servir como uma entrada

Quando a noite
Deixar as estrelas passar

Quando o rio
Finalmente se entrega ao mar
A vida vai acontecer

Se trocarmos as voltas
Do Ter para o Ser

Se deixarmos
Os olhos falarem à alma
Nem sempre o fogo se acalma
Mas a vida vai acontecer

Clara Almeida Santos

terça-feira, maio 01, 2007


(Às vezes esqueço-me que)



Há muitas mais formas de comunicar para além das palavras.


segunda-feira, dezembro 25, 2006



E há tempos em que não apetece falar, nem escrever, nem pensar. E tempos em que sabe bem rir para o mundo todo como se não houvesse amanhã, e tempos em que sabe bem estar sisuda, meditativa, séria, pensativa. E tempos em que estudo, e tempos em que me perco em devaneios... E sempre tu, em todos estes tempos. E às vezes apetece abraçar-te e falar a tarde toda sobre coisas sem nexo. E contar-te sobre os disparates do meu dia, e sussurrar-te a beleza de um rapaz que me passou pelo caminho. E outras vezes dou comigo a falar-te com um brilho nos olhos da paixão que sinto pelas pessoas que me rodeiam. E do meu gosto por pãezinhos com atum, por cappuccinos com sabor a canela e boas conversas. E daquele rapaz que não me sai da cabeça. E maravilho-me com esta amizade estranha, que fala de um Amor que não é amor, de um Amor maior que tu e eu, maior que tudo isto que falo, de tudo isto que hoje é e amanhã talvez não seja, mas que importa?...
E não sei bem como dizer-te como tudo isto é valioso, como é bom este conforto quentinho das nossas conversas, este Amor-amizade que me embala quando cedo ao apetite de ser frágil e vulnerável. E apesar de por vezes te olhar e sentir que sabes tudo isto (sabes?...), queria deixar este texto para ti.

Para tantos amigos.

sexta-feira, novembro 10, 2006



O mundo está cheio de surpresas que nos põem a caminho. Como aquela criança que olhava fascinada para o pai. Este dizia-lhe: "Vês aquela coisa grande, ali, alta, é uma árvore. E aqui - enterrava uma sementinha - vai nascer uma como aquela." A criança abria a boca de espanto e sorria. Acreditou. Não é que tivesse lógica, mas era o pai que dizia.


Vasco Pinto de Magalhães, s. j.

sexta-feira, setembro 08, 2006

Arte

(Art by Quino)

quarta-feira, julho 05, 2006

Notícias (Sur)reais


Da National Geographic de Julho de 2006:

"Estima-se que mais de um quarto dos acidentes rodoviários da Namíbia envolvam colisões com burros, uma vez que é frequente os animais de pêlo escuro domirem à noite no pavimento quente. Para evitar os acidentes, o grupo Bem-Estar dos Burros está a trabalhar com o governo para equipar os burros com reflectores nas orelhas. Até à data, a organização ambientalista já marcou cerca de cinco centenas de animais."

É caso para dizer: "cada burro, sua mania"...

segunda-feira, junho 26, 2006

segunda-feira, junho 12, 2006

Flashs



Quem me dera poder recordar todos

os sorrisos,

todas as expressões,

toda a riqueza e profundidade
dos olhares.

Há tanto de insondável em cada pessoa, tanto que me escapa nos passeios distraídos de conversas amenas... fracções de segundo que escrevem poesia nas entrelinhas, infinitésimos de extraordinária beleza, sabores e aromas que parece que me escapam por entre as fibras nervosas de um qualquer lobo cerebral...


Flashs

de memória.


sábado, junho 10, 2006

GPS - Guia de Pequenas Sensações

Este texto foi escrito para a edição de Março do jornal do Centro Universitário Manuel da Nóbrega (CUMN), o CUMNicação. O cantinho em que foi escrito chama-se "GPS - Guia de Pequenas Sensações" - que utilizei também como título deste post. Enquanto aguardo algum tempo para escrever algo mais recente, aqui fica um momento de introspecção num desses cantinhos perdidos no meio da cidade.


Sentada no mármore branco, olho o horizonte que entardece. A luz vai desaparecendo lá ao longe em borrões alaranjados, mas aqui o mármore branco ri do escuro que o ameaça. O frio começa a cristalizar nos socalcos de relva verde, e os meus olhos sobem cada degrau novamente como que incitando o corpo ao movimento. Levanto-me enfim e o meu pensamento volta a cair sobre o Palácio que encima este jardim tão silencioso e austero. Respiro fundo o ar - de tão frio quase parece puro - e movo-me em busca de uma paisagem encoberta, que ao fim de três lanços de escadas alcanço. A beleza do contraste entre a baixa de Coimbra e a alta da cidade provocam-me uma sensação de alma de artista aprisionada… quem disse que a poesia estava ao alcance de todos?

Um suspiro de resignação devolve-me ao local, agora já com algumas sombras a indicar que se faz tarde… pena que o tempo não esteja à nossa mercê. Com um sorriso despeço-me dos socalcos mudos, naquela serenidade carinhosa de quem sabe que há-de voltar.

Jardim da Cerca de S. Bernardo, Pátio da Inquisição.
Coimbra, 15 de Novembro de 2005

sábado, março 18, 2006

Beleza


Não posso deixar de me maravilhar com a beleza de uma obra de arte. Assim como não posso deixar de associar a beleza a tempo. Tempo gasto, tempo dispendido, tempo para trabalhar em algo até tomar forma, tempo para perceber que sentido dar às coisas.
As relações parecem-se muito com obras de arte: belas, irreverentes e imprevisíveis, desenrolam-se nos meandros de cada personalidade envolvida e são espelho de expectativas, desejos e formas de vida de quem as empreende. E levam tempo a ser construídas.
Curioso como ninguém questiona o tempo que é necessário para se criar uma obra de arte. Tal como ninguém questiona a sua imprevisibilidade. Mais curioso ainda: quanto mais original, destemida e arrojada é uma obra de arte, quanto menos estiver sujeita a convenções e trouxer novidade, mais atenção e apreço capta por parte dos seus apreciadores.
Agora pergunto-me: porque não é também assim com as relações? Porque é que tem de ser sempre tudo inscrito nos mesmos códigos, nas mesmas condutas? Porque é que se espera que todo o sentido de uma relação surja num primeiro olhar, numa primeira conversa? Porque é que se insiste em afirmar que todo o rumo de uma relação se vê numa primeira impressão? E porque é que se baseia tudo em actos irreflectidos e precipitados?
Não há quem olhe para uma obra de arte e não se maravilhe com a minúcia de cada pormenor, a perfeição de cada traço. Não há quem não saboreie cada sentimento, cada ideia, cada pedaço de alma que é espelhado em cada gesto. E não acredito que haja quem pense que aquele pedaço de genialidade foi feito numa semana ou num mês.
Saber esperar é, mais do que uma virtude, um sinal de sabedoria. Saber esperar, mais do que ficar na expectativa dos meus desejos, é trabalhar com atenção e amor, dando espaço à criação para tomar o seu próprio rumo.

(Escultura: 'Psiquê e Cupido', de Canova)

domingo, fevereiro 12, 2006

Suspiro



Quem me dera que estudar fosse sempre assim tão calmo e agradável...

domingo, fevereiro 05, 2006



Há pessoas que gostam de olhar para as velhas fotografias e lamentar o que foram, ou então ficarem com pena de não terem ficado eternamente crianças, eternamente "felizes".
Eu gosto de olhar para as minhas fotografias e sorrir ao meu passado. A felicidade não é um estado de alegria passageira, é a consciência de que tudo o que fui trouxe tudo o que sou, que é muito, mas pode ser ainda mais. A felicidade é crescer, e crescer é olhar para hoje para ver o que posso ser amanhã e pôr mãos à obra... ser feliz é ser um projecto incansavelmente inacabado.

domingo, janeiro 01, 2006

Ano Novo




"Há uma imensa sabedoria em viver cada dia como se fosse o primeiro e há uma imensa felicidade em viver cada dia como se fosse o último. As duas coisas são possíveis ao mesmo tempo."


Vasco Pinto de Magalhães, in Não há soluções há Caminhos


Um Bom Ano Novo, com um grande beijinho :)

quarta-feira, novembro 02, 2005

Piadas Inteligentes



Qual é o ruído que um átomo faz ao cair?

... Planck!

segunda-feira, outubro 31, 2005

Esperança...



... Expectativa, Ânimo, Força, Confiança, Alento, Vontade, Persistência, Trabalho, Esforço, Fé ...


... AMOR.

domingo, outubro 16, 2005

"Errare divinum est"


Será o erro uma dimensão incontornável do ser humano? E se é assim tão determinístico, para que acontece? Que dimensão (diria, quase irónica) nos permite que sonhemos alto, que ultrapassemos as nossas limitações para logo a seguir nos depararmos com ainda mais limitações, com a nossa pequenez, as nossas fraquezas?...

De volta aos primórdios da palavra, errar provém do latim "errare", que significa "afastar-se do caminho verdadeiro, da Verdade". Errar é escolher outro caminho que não o essencial, desviar-se do que se é, dar passos que não vão ao encontro da realização pessoal plena. Vistas as coisas desta forma, está justificado o porquê de algumas pessoas se martirizarem com os seus erros ao ponto de se autodesprezarem. Ou então não. Porque se é verdade que afastar-se do caminho essencial é, no fundo, afastar-se de si próprio, não será ainda mais verdade que ao nos afastarmos daquilo que somos estamos, pela negação, a distinguir com clareza o que realmente somos do que na verdade não é parte do nosso ser?

Assim sendo, teria lógica a corrente prática de esquecer o erro e seguir em frente. Mas esquecer um erro significa apagar um caminho mal trilhado do nosso mapa de vida, o que corresponde a diminuir o número de possibilidades de orientação. O que se espera é que à medida que avançamos vamos preenchendo o mapa com novas possibilidades, e que, pelos caminhos que trilhámos anteriormente, sejamos capazes de evitar alguns caminhos menos frutíferos para a nossa jornada sem os trilharmos. Isto só é possível se de cada vez que errarmos sejamos capazes de aceitar activamente o erro, ou seja, dele retirarmos um melhor conhecimento das nossas limitações (e, consequentemente, das nossas capacidades), para que, posteriormente, possamos extrair o máximo de nós próprios, de forma realista e verdadeira.

Quanto mais consciente dos meus limites, mais consciente das minhas possibilidades e mais capaz de aceitar que não sei tudo sobre mim próprio, que estou numa jornada de auto-conhecimento, e por isso sou passível de falhar onde menos esperava. É aqui que entra a dimensão do perdão, onde cada um é chamado a aceitar-se e a fazer sair de si o que de melhor tem para dar. Sem ilusões ou desilusões (que é como quem diz, sem imagens, positivas ou negativas, criadas de mim para mim), vou trilhando o meu caminho pessoal em direcção à minha essência.

De Deus e para Deus. E com tantas oportunidades de sermos melhores, errar só pode mesmo ser divino.

quinta-feira, setembro 29, 2005

Peculiaridades

"La Lhéngua Mirandesa, doce cumo ua meligrana, guapa i capechana, nun yê de onte, detrasdonte ou trasdontonte mas cunta cun uito séclos de eijistência. Sien se subreponer a la "lhéngua fidalga i grabe" l Pertués, yê tan nobre cumo eilha ou outra qualquiêra.
Hoije recebiu bida nuôba.
Saliu de l absedo i de l cenceinho an que bibiu tantos anhos. Deixou de s'acrucar, znudou-se de la bargonha, ampimponou-se para, assi, poder bolar, strebolar i çcampar l probenir.
Agarrou l ranhadeiro para abibar l lhume de l'alma i l sangre dun cuôrpo bien sano.Chena de proua, abriu la puôrta de la sue priêça de casa, puso fincones ne l sou ser, saliu pa las ourriêtas i preinadas..
Lhibre, cumo l reoxenhor i la chelubrina, yá puôde cantar, yá se puôde afirmar.
A la par de l Pertués, a partir de hoije, yê lhuç de Miranda, lhuç de Pertual. "


(Texto de Apresentação do Projecto Lei de reconhecimento
dos direitos linguísticos da Comunidade Mirandesa.
Assembleia da República
Lisboa, 17 de Setembro de 1998)

quarta-feira, setembro 28, 2005

Almas gémeas


Quando toca a este tema, não posso deixar de recordar aquela fantástica série da RTP2, Dharma e Greg. Dharma é uma rapariga filha de pais hippies, altamente liberais (libertinos?...), cuja ideologia se baseia no "amor e paz" para cada um, sem conflitos nem disputas. Greg, por seu lado, é oriundo de uma família muitíssimo conservadora, rica e de bom nome, a qual gostaria que ele tivesse escolhido uma esposa mais educada, prendada e de preferência com um nome para apresentar. A série relata a vida matrimonial do casal, bem sucedida em todos os campos, com excepção das tentativas que visam o bom relacionamento dos pais de ambas as partes.

Fora da Televisão, dentro do dia-a-dia, parece que, de facto, a série - com todo o seu exagero humorístico - tem um fundo de verdade: o sítio de onde se provém, os ideiais partidários ou mesmo, por vezes, a religião na qual se foi criado, não parecem ter muito a ver com o que determina a felicidade da união de duas pessoas. Se bem que há casais que têm tudo em comum e parecem "meant to be together"... outros há que desafiam as leis da sociedade e do previsível com o grau de improbabilidade da relação. Mais engraçado que isto é que, não só raras vezes os segundos funcionam, como o fazem melhor do que os primeiros.

Face a estes "fenómenos para-normais", resta-me a pergunta incontornável: afinal, o que une (realmente) duas pessoas?...

... Do tempo que pensei sobre isso, cheguei a uma conclusão que me parece ter sentido: numa relação saudável - isto é, numa relação na qual os membros do casal crescem em conjunto, de forma livre mas sem se distanciarem demais, e de forma próxima mas sem se sufocarem - as pessoas intervenientes têm em comum algo que se prende com o que esperam do mundo e a forma como trabalham para o alcançar. Procuram o mesmo, ainda que lhe chamem nomes diferentes. Desenvolvem esforços com vista a um mesmo fim, ainda que aparentemente o façam de formas distintas. Vêm o mundo de forma semelhante. E com base nesta premissa, vão-se desenvolvendo em conjunto, tolerando tudo o que é de somenos importância com vista a um bem comum. É esta verdade comummente partilhada que traz tudo o resto: o falarem a mesma linguagem, o entenderem tudo o que outro diz e o que não diz, o saberem respeitar as pequenas diferenças porque há algo de maior que os une, algo que orienta a forma como querem crescer no mundo e o lugar que pretendem nele.

Parece uma visão, embora bonita, algo complicada. Como vamos conseguir saber quem é a pessoa que se rege pela nossa visão do mundo? Como sabemos o que quer a outra pessoa, ou, se calhar ainda mais difícil, o que nós queremos? A resposta, no meu entender, é simples: pela Amizade. E quando me refiro a Amizade não falo somente da relação de companheirismo dos "bons" ou "maus" momentos, mas - mais importante que tudo o resto - de uma sede de conhecimento de nós próprios e dos outros, que leva a uma partilha profunda, verdadeira e desinteressada. E, se bem que trabalhoso, parece-me que este método iria resolver muitos desamores que por aí se geram: passa-se do discurso do "ele é krido,damo-nos bem,deixa ver o que dá" para uma vontade insaciável de conhecimento honesto, o qual daria lugar a muitas amizades frutíferas e a menores probabilidades de falha em relacionamentos mais sérios. Pelas palavras do sábio Karol Wojtyla:

"O amor, no seu conjunto, não se reduz à emoção nem ao sentimento, que não são senão alguns dos seus componentes. Um elemento mais profundo, e de longe o mais essencial de todos, é a vontade, que tem o papel de modelar o amor no homem. Na amizade - ao contrário do que sucede na simpatia - a participação da vontade é decisiva".

sexta-feira, setembro 02, 2005

Inútil... mas tão belo.





A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.


Fernando Pessoa