domingo, abril 27, 2008

sexta-feira, abril 25, 2008

Valor, contexto e arte

Aquela poderia ser mais uma manhã como outra qualquer. Um sujeito entra na estação do metro, vestindo jeans, camiseta e boné, encosta-se próximo à entrada, tira o violino da caixa e começa a tocar com entusiasmo para a multidão que passa por ali, na hora de ponta matinal. Durante os 45 minutos em que tocou, foi praticamente ignorado pelos traunseuntes. Ninguém sabia, mas o músico era Joshua Bell, um dos maiores violinistas do mundo, executando peças musicais consagradas, num instrumento raríssimo, um Stradivarius de 1713, estimado em mais de 3 milhões de dólares. Alguns dias antes Bell tinha tocado no Symphony Hall de Boston, onde os melhores lugares custam a bagatela de 1000 dólares. A experiência, gravada em vídeo, mostra homens e mulheres de andar ligeiro,copo de café na mão, telemóvel no ouvido, crachá a balançar no pescoço,indiferentes ao som do violino. A iniciativa realizada pelo jornal The Washington Post era a de lançar um debate sobre valor,contexto e arte. A conclusão: estamos habituados a dar valor às coisas quando estão num contexto. Bell era uma obra de arte sem moldura. Um artefato de luxo sem etiqueta de marca.

terça-feira, abril 22, 2008

Deambulações


"Se no decorrer da vida só conhecemos uma pequena parte de nós próprios, para onde vai todo o resto?"

in Contos de Hoffman

terça-feira, março 18, 2008

Não há pior angústia do que olhar-se impotente face ao sofrimento de outra pessoa.

sábado, fevereiro 23, 2008

E no meio de tanto estudo, às vezes é complicado saber porque raio ando eu para aqui a existir. Já lá dizia o outro que o sentido da existência é uma chávena de chá?... Não digo que haja um sentido global, único, mas sim sentidos que surgem (que construímos) que nos fazem integrar melhor as coisas... o problema é que o único sentido que eu neste momento estou a ver é o que aponta para o meu livro de terapêutica. Será que se eu me esquecer tempo suficiente do que sou posso vir a acordar e não me reconhecer?

Em homenagem a uma Pessoa :)


Leve, breve, suave,
Um canto de ave
Sobe no ar com que principia
O dia.
Escuto, e passou...
Parece que foi só porque escutei
Que parou.

Nunca, nunca, em nada,
Raie a madrugada,
Ou 'splenda o dia, ou doire no declive,
Tive
Prazer a durar
Mais do que o nada, a perda, antes de eu o ir
Gozar.

Fernando Pessoa

sábado, janeiro 26, 2008

Lugares comuns com piada


Lugares comuns


O Beijo
Óleo sobre tela de Gustav Klimt

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Alguém sábio qb ;) disse uma vez que o template de um blog influencia aquilo que se escreve nele: se o template é branco, limpo, como uma folha de papel imaculada, as expectativas que ponho naquilo que escrevo serão maiores, por receio de os textos não serem suficientemente bons para aquele pedaço magnífico de papel. Porém, se tiver à minha frente uma simples folha de rascunho, a minha escrita fluirá livremente, uma vez que no final posso simplesmente amarrotá-la e deitá-la para o lixo se não gostar do que escrevi.
Creio que o meu antigo template era uma folha de papel muito caro. E os textos que nele escrevia eram trabalhados até me parecerem "ficar bem na moldura". E houve uma altura em que nada do que escrevia me parecia suficientemente bom para ser publicado. No entretanto fui dar um passeio, olhei para a paisagem, caminhei e respirei fundo e quando voltei surgiu esta nova forma do meu velho blog: o mesmo blog, só que sem a aspiração, inútil, porque inerte, de ser perfeito. Para este blog desejo, apenas... que encontre o seu próprio rumo. E já não é tarefa fácil de concretizar :).

Pontas soltas II


Há sempre a tendência de comparar coisas sublimes, que fogem ao no
sso entendimento, com Deus. E é uma tendência sábia, porque se baseia no reconhecimento de que Deus nos escapa - porque transborda - dos nossos limites. Mas por ser tão Grande é impossível de o entendermos racionalmente. E exactamente por ser tão Grande está em tudo, e dessa forma a razão não se basta para o entendermos. A razão é um meio de nos abrirmos a Deus. Mas o caminho para ele é sempre a emoção. O que a razão pode fazer - e com mestria - é depurar a emoção, para que ela se centre no Essencial. Porque é aí, no Essencial, que Deus está. Ou, por outra, porque Deus é o Essencial.

Pontas Soltas I

A Sinfonia: só conseguimos cantar uma das vozes de cada vez, mas podemos sempre escutá-la toda se fizermos silêncio. E mais engraçado que isto: qualquer pessoa consegue ouvir uma sinfonia e apreciá-la devidamente.
A sinfonia é um conjunto de várias partes, sim, e isso é importante. Mas mais importante é o facto de a sua beleza ser, em maior ou menos extensão, acessível a qualquer pessoa. Mesmo que ela não saiba sequer que o conceito de Música existe. Ou que em vez de lhe chamar Música lhe chame outra coisa qualquer.

Evidências

O bom é inimigo do óptimo. E de tanto me concentrar no óptimo acabei por me esquecer do possível.

terça-feira, janeiro 15, 2008


Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.

Nuno Júdice

terça-feira, dezembro 11, 2007

terça-feira, novembro 20, 2007

Carta (Esboço)

Lembro-me agora que tenho que marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sitio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer.
É que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: “Vem comigo!”, e devo dizer-te que muitas
vezes pensei isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

Nuno Júdice

sábado, outubro 06, 2007

Lindo.

sábado, maio 26, 2007

Entre cá e lá


Se o vendaval se fizesse brisa
E deixasse ouvir
A vida a nascer

Se a montanha
Se tornasse meta Alcançada

Se a tempestade deixar sentir
O cheiro da terra molhada
A vida vai acontecer

Quando a guerra for pacificada
E a porta de saída
Servir como uma entrada

Quando a noite
Deixar as estrelas passar

Quando o rio
Finalmente se entrega ao mar
A vida vai acontecer

Se trocarmos as voltas
Do Ter para o Ser

Se deixarmos
Os olhos falarem à alma
Nem sempre o fogo se acalma
Mas a vida vai acontecer

Clara Almeida Santos

terça-feira, maio 01, 2007


(Às vezes esqueço-me que)



Há muitas mais formas de comunicar para além das palavras.


segunda-feira, dezembro 25, 2006



E há tempos em que não apetece falar, nem escrever, nem pensar. E tempos em que sabe bem rir para o mundo todo como se não houvesse amanhã, e tempos em que sabe bem estar sisuda, meditativa, séria, pensativa. E tempos em que estudo, e tempos em que me perco em devaneios... E sempre tu, em todos estes tempos. E às vezes apetece abraçar-te e falar a tarde toda sobre coisas sem nexo. E contar-te sobre os disparates do meu dia, e sussurrar-te a beleza de um rapaz que me passou pelo caminho. E outras vezes dou comigo a falar-te com um brilho nos olhos da paixão que sinto pelas pessoas que me rodeiam. E do meu gosto por pãezinhos com atum, por cappuccinos com sabor a canela e boas conversas. E daquele rapaz que não me sai da cabeça. E maravilho-me com esta amizade estranha, que fala de um Amor que não é amor, de um Amor maior que tu e eu, maior que tudo isto que falo, de tudo isto que hoje é e amanhã talvez não seja, mas que importa?...
E não sei bem como dizer-te como tudo isto é valioso, como é bom este conforto quentinho das nossas conversas, este Amor-amizade que me embala quando cedo ao apetite de ser frágil e vulnerável. E apesar de por vezes te olhar e sentir que sabes tudo isto (sabes?...), queria deixar este texto para ti.

Para tantos amigos.